Sallisa Rosa: artista solo 

31/03/2025

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Na produção da artista, o barro é matéria-prima para tratar de temas como território, ancestralidade e possibilidades de futuro (foto: Nilton Fukuda)

POR LUNA D’ALAMA
FOTOS NILTON FUKUDA 

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Formada em jornalismo, Sallisa Rosa chegou a estagiar em uma TV universitária de Goiânia, antes de se tornar artista. Fez, ainda, alguns trabalhos pontuais na área, para sobreviver, mas não se encaixou nesse universo de entrevistas, apurações e escrita com prazos apertados. “Vi que me expressava melhor pela arte do que pelas palavras”, destaca. Mais tarde, já morando no Rio de Janeiro (RJ), recebeu o incentivo de um professor amigo de seu pai e inscreveu um projeto para o Museu de Arte do Rio (MAR) – a instalação Oca do futuro (2018). Resultado: foi aprovada. Desde então, obras de Sallisa já integraram exposições coletivas nos Estados Unidos, na China, na Inglaterra e na Suíça, além de ganhar as mostras individuais América, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), entre 2021 e 2022; e Sallisa Rosa: Topografia da memória, na Pina Contemporânea, em 2024. Seus trabalhos também compõem o acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e da Pinacoteca de São Paulo, e estiveram na Bienal de Barro de Caruaru (PE), em 2019. 

A artista utiliza a terra em diferentes materialidades e técnicas de bioconstrução, como cerâmica, taipa de pilão, pau a pique, adobe e hiperadobe. Além disso, tem produções em aquarela, vídeo, fotografia e performance. No caso das esculturas, não usa argila comprada, apenas coletada, criando vínculos com o solo e seus territórios. “Me mudei para Amsterdã (Holanda) no ano passado, para participar de uma residência artística na Rijksakademie van beeldende kunsten [Academia Nacional de Artes Visuais]. Foi a primeira vez que comprei argila em um saco plástico, sem saber de onde vinha. É um material muito processado, com substâncias químicas que alteram a cor, a textura. Não tem cheiro de terra, nem sujou minhas mãos”, lembra. Sallisa conta que, no Brasil, costuma retirar a argila de terrenos do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e que o solo vivo contém bastante matéria orgânica, pedrinhas, e até lixo. “Certa vez, encontrei uma caneta esferográfica. Coleto o barro, misturo, peneiro, sovo, separo manualmente as pedras, é como catar feijão. E faço tudo no freestyle, na base das minhoquinhas de argila que se sobrepõem, sem equipamentos para moldar ou nivelar as peças. Tenho um jeito muito autodidata e artesanal de produzir”, relata. 

Na visão da artista, sua obra também possui um contínuo alinhamento conceitual e de materialidades, inclusive com o reaproveitamento da terra entre uma exposição e outra. “Reutilizo muita coisa, até para não gerar resíduos. De alguns trabalhos que se quebraram, por exemplo, eu reuni os cacos para criar algo novo. É o caso da esfera Natureza vai vingar (2024), que está na entrada da exposição Eixo Terra, no Sesc Pompeia [Leia mais em Matéria do tempo]. E, ao final, volta tudo para o MST”, ressalta. Sallisa tem preferência por obras em grande escala, imersivas, que criam novos ambientes e conversam – ou se chocam – com a arquitetura dos lugares e de outros momentos históricos. “A gente vive rodeado(a) de estímulos: celular, trânsito, barulhos. Por isso, crio territórios – ainda que sejam fictícios e temporários – para dialogar com a memória e a ancestralidade. No caso do prédio projetado por Lina Bo Bardi (1914-1992), também são propostos uma conversa e um conflito com essa arquitetura. Inclusive, a obra Rio de adobe (2024) sai diretamente da parede de tijolos à vista do Sesc Pompeia”, descreve. 

O barro que Sallisa Rosa manuseia e com o qual produz arte é, para ela, um ativador de memórias, um criador de futuros possíveis e sustentáveis. “A terra é viva, guarda informações, lembranças. Da mesma forma como arqueólogos encontram, enterrados, potes, artefatos e histórias incríveis a partir deles. O barro, num filtro, torna a água mais fresca. Numa casa, aguenta chuva, sol, tem toda uma termodinâmica que protege as pessoas do calor. Não sei por que deixamos de utilizar essas tecnologias ancestrais. Quando penso no futuro, penso na terra”, conclui. 

para ver no sesc / gráfica 
Matéria do tempo 
Sesc Pompeia apresenta a exposição Ofício: Barro: Sallisa Rosa: Eixo Terra no espaço das Oficinas de Criatividade

O barro é matéria do tempo, e sua textura guarda em si a síntese da terra: firme e maleável, simultaneamente. A terra úmida também carrega histórias de fertilidade, erosões e grandes transformações sociais e geográficas. Tendo em vista a importância do solo que nos sustenta, o Sesc Pompeia dá continuidade ao projeto Ofício (que já se dedicou à marcenaria, pintura e arte têxtil) e apresenta “Barro” como novo recorte temático. Até 13 de julho, a unidade traz, no espaço das Oficinas de Criatividade, a exposição Ofício: Barro: Sallisa Rosa: Eixo Terra. A mostra aborda, para além de temas como ancestralidade, território e memória, as intervenções de corpos humanos sobre o corpo-Terra. 

Segundo Daniel Ramos, supervisor de Artes Visuais do Sesc Pompeia, a artista goiana Sallisa Rosa propõe uma reflexão sofisticada a respeito das relações predatórias da humanidade com as águas e com a terra. “A partir de uma pesquisa que encruzilha processos da arte contemporânea com procedimentos tradicionais de bioconstrução, Sallisa lança luz para a relevância de realizarmos o movimento do pássaro africano Sankofa – olhar para trás para seguir em frente – e, assim, escaparmos das armadilhas de um tipo de existência que nos levará à extinção”, destaca. Ramos lembra também que, em 1984, a arquiteta Lina Bo Bardi e a artista têxtil Glaucia Amaral (1937-2021) capitanearam, no Sesc Pompeia, a exposição Caipiras, Capiaus e Pau a Pique que, assim como Eixo Terra, apresentou técnicas de construção tradicionais. “Em um texto produzido para a mostra, Lina concluiu: ‘Importante é construir uma outra realidade’. Ouso, então, completar que essa é uma das vocações do Sesc Pompeia, pois o mundo é circular”, enfatiza Ramos. 

Com expografia de Bianca Walber Scarpin e acompanhamento técnico expográfico de Audrey Carolini, a nova mostra individual de Sallisa Rosa inclui esculturas, instalações, vídeo mapping, recursos de acessibilidade (mesa tátil, audiodescrição e textos ampliados), QR Codes para mais informações e um texto crítico–poético da artista brasiliense Tatiana Nascimento. Além disso, uma programação especial do educativo do Sesc Pompeia abrange oficinas, contação de histórias e visitas mediadas para escolas e grupos agendados. 

Pompeia
Ofício: Barro:  Sallisa Rosa: Eixo Terra 
Até 13/7 de 2025. Terça a sexta, das 10h às 21h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. Grátis. 
sescsp.org.br/pompeia          

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