POR MANUELA FERREIRA
Leia a edição de ABRIL/25 da Revista E na íntegra
A Terra Indígena Raposa Serra do Sol, situada no estado de Roraima, transcende a simples demarcação geográfica. Ela configura um espaço múltiplo, tecido por cinco etnias – Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana – que somam mais de 26 mil indivíduos. A área demarcada, de aproximadamente 1.750 hectares, homologada em 2005, após uma longa e árdua luta, representa um microcosmo da intrincada relação ancestral entre os seus habitantes e o meio ambiente. A complexidade da região, seus desafios e riquezas, moldaram a visão de mundo e estão na nascente da produção e do ativismo do artista multimídia, arte-educador, escritor, curador independente e produtor cultural indígena da etnia Macuxi, Jaider Esbell (1979-2021).
Nascido e criado em Normandia, um dos três municípios fincados na Raposa Serra do Sol, Esbell fez de sua obra um catalisador para discussões sobre conhecimentos indígenas, com a qual desafiou o público – e instituições culturais – a confrontarem suas percepções sobre a arte dos povos originários. Enfatizando a força e a resistência de seu povo, tem em suas criações não apenas uma expressão estética: suas obras são um chamado à ação e à reflexão, pilares da sua atuação como artivista, como ele próprio se definia. Com uma abordagem que combina elementos artísticos, ancestralidade, espiritualidade, memória, política e ecologia, a pesquisa de Esbell se tornou um dos expoentes práticos de crítica decolonial, ancorada, ainda, na cosmovisão Macuxi, as narrativas míticas e a vida cotidiana na Amazônia.
Lugares urgentes
Esbell foi, também, um articulador junto aos demais artistas indígenas contemporâneos do Norte do Brasil, cunhando o conceito de txaísmo – termo que se refere à construção de relações de afinidades afetivas nos circuitos interculturais das artes, com foco no protagonismo indígena. “Nunca fiz curso de arte, nem estou a fim de fazer. Trabalho muito nesse campo do artivismo, na ideia de levar o movimento indígena de raiz, que luta desde o primeiro índio que flechou o navio de Cabral. É uma luta contínua por identidade e respeito. A gente sempre fez arte e não precisava do europeu para entender o sentido, a função dela. Arte pra nós é fundamental, é origem. Índio e arte nascem juntos. Não com esse nome, mas com todas as funções que a ideia de arte tem”, afirmou o artista, em entrevista à jornalista Juliana Domingos de Lima, do portal Ecoa Uol, em setembro de 2021.
Naquele momento, ele foi uma das vozes mais contundentes na reivindicação por uma maior presença de artistas indígenas na 34ª Bienal de São Paulo, inaugurada dias antes. No ano em que completava 70 anos, a Bienal expôs a maior quantidade de artistas indígenas de sua história. Destes, quatro eram estrangeiros e cinco, brasileiros – além de Esbell, o grupo era composto por Daiara Tukano, Sueli Maxakali, Uýra e Gustavo Caboco. Em paralelo, acontecia no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) a mostra Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea, correalizada pela instituição e pela Fundação Bienal de São Paulo. A exposição, que teve a curadoria assinada por Jaider Esbell, simbolizava outro marco, e apresentou trabalhos de 34 artistas indígenas.
A gente sempre fez arte e não precisava do europeu para entender o sentido, a função dela. Arte pra nós é fundamental, é origem. Índio e arte nascem juntos.
Jaider Esbell (1979-2021)
Transformação coletiva
Um dos nomes presentes em Moquém_Surarî, Denilson Baniwa reflete sobre como o trabalho de Esbell contribuiu para a ampliação dos espaços de representatividade e para o reconhecimento dessa produção cultural – sobretudo em circuitos artísticos e intelectuais antes dominados por narrativas eurocêntricas. “Jaider teve coragem de enfrentar o que poucos enfrentaram, pagou caro por isso, mas deixou claro que o mundo de agora não conseguiria mais esconder a presença indígena na sociedade atual. As narrativas eurocêntricas ainda são a maioria, mas, pelo menos agora, há um apêndice chamado narrativa indígena. É ótimo, mas ainda é pouco”, ressalta Baniwa. Para o artista, o legado que Esbell deixou permanece inspirando novas gerações. “Espero que anime mais indígenas a enfrentarem o mundo fora da aldeia, entendendo seus códigos e sabendo que sua identidade é forte e pode gerar novos pontos de vista sobre a história. O trabalho e a vida de Jaider servem como referência de caminhos a seguir e quais evitar”, acrescenta.
Baniwa considera que também foi preciso coragem para que as armadilhas e os louros ao ter um lugar junto aos brancos fossem desvelados por Esbell. “A representatividade precisa ser conquistada, pois quando é doada pelos brancos, é apenas um espaço de organização de pautas. Jaider deu caminhos que podem servir aos que virão. Agora, eles sim, vão ampliar esses caminhos e espaços. O que temos agora é muito pouco para caber toda a vontade de falar, engasgada na voz das pessoas indígenas. Jaider cumpriu seu papel. Agora, é saber se alguém vai aproveitar esse momento”, constata.
Força de Makunaimã
O debate sobre a histórica “Bienal dos índios” (como Esbell a nomeou) segue ecoando e foi analisado pelo artista, em conversa com o repórter Artur Tavares, do site Elástica, em 3 de outubro de 2021. “Esse trabalho todo com a Bienal é parte da nossa política histórica de resistência indígena, que é uma extensão de um movimento invisibilizado pelas próprias mídias, o movimento de base. Hoje, mais uma vez, os povos originários estão em Brasília lutando pelo óbvio, pela vida e dignidade, enquanto a sociedade, a mídia e muita gente acham que ainda é uma luta dos índios, uma luta à parte do mundo, sem conseguir entender que é uma luta básica, pela vida, que está muito além da vida humana. Se luta por tudo, inclusive pela espiritualidade”, pontuou.
Geógrafo formado pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), Jaider Esbell era funcionário concursado da estatal de energia elétrica Eletronorte (hoje subsidiária da Eletrobras) quando, em 2010, fez sua primeira grande incursão no universo artístico, ao ser contemplado com a Bolsa de Criação Literária da Fundação Nacional das Artes (Funarte). Embora pintasse desde criança e suas primeiras mostras individuais datassem desse período, sua estreia pública seria pela escrita: a premiação possibilitou a publicação do livro Terreiro de Makunaimã – mitos, lendas e estórias em vivências (Elefante, 2012). Na obra, o autor se reconhece como um dos netos de Makunaimã, divindade da cultura Makuxi, habitante do Monte Roraima e figura central de suas tradições – e que se tornou um ícone popular pela lente modernista do escritor Mário de Andrade (1893-1945) no romance Macunaíma, o heroi sem nenhum caráter, lançado em 1928.
Caminhos da criação
“Terreiro de Makunaimã traz as vozes indígenas Pemon, Taurepang, Wapichana e Macuxi, povos que são herdeiros legítimos de Makunaimã, a reclamar dentro da própria casa de Mário de Andrade o Macunaíma estereotipado, que mistura histórias e culturas indígenas diferentes para compreender a formação do povo brasileiro, a partir do nosso sagrado. É no barulho da discussão sobre Macunaíma e Makunaimã que Mário de Andrade desperta do além, caminha até a sua sala e surpreende a todos (…). É nessa energia que acontece o diálogo entre o dono da casa, os reclamantes e os convidados – infelizmente, para Mário, sem vinho nem charutos”, assina no prefácio, o músico, compositor e cineasta Cristino Wapichana.
Em artigo publicado na Revista Iluminuras, de 2018, número 46, Esbell examinou o impacto do livro. “Eu, quando assumo e reivindico o meu laço familiar com Makunaimã, estou convidando a ir ao além no discutir decolonização ou colonização. Quando tomo isso como um argumento, quero dizer que é parte minha querer que em todas as partes esteja algum extrapolar dos discursos. Quando faço isso publicamente em um lugar estratégico, com arte, acredito estar sendo paradidático”, escreveu.
Espelho da lua
Pouco depois do lançamento de Makunaimã, Esbell obteve uma licença não remunerada das funções públicas e partiu para uma temporada de exposições, aulas e palestras nos Estados Unidos. Fez conexões importantes e circulou no meio acadêmico de instituições como Pitzer College, na Califórnia. Ao retornar ao Brasil, em 2013, o talento para articular, reunir e potencializar o trabalho de nomes das artes indígenas, jovens ou já estabelecidos, ganharia corpo ao iniciar uma série de três edições do Encontro de Todos os Povos, sediado em Boa Vista (RR), dando novo fôlego, assim, ao movimento de valorização institucional das produções artísticas indígenas. Era 2016 quando se desligou da estatal para se dedicar totalmente à vocação artística.
No mesmo ano, foi agraciado pelo Prêmio PIPA, considerado um dos principais de arte contemporânea do Brasil. “Ele foi transformando seu estúdio, no qual pintava suas telas, em ateliê, atuando muitas vezes em conjunto com outros nomes. Este trabalho levou à criação de uma galeria de arte indígena contemporânea, que não representava, mas sim apresentava os artistas, reunindo um acervo muito rico”, conta Parmênio Citó, amigo de longa data e conselheiro da Galeria Jaider Esbell de Arte Indígena Contemporânea. Localizado na capital roraimense, o espaço é coletivo e independente, e serve à produção, circulação de obras e atividades de formação, além de guardar e representar o espólio do artista. Obras de Jaider Esbell integram, hoje, coleções como a do Centre Georges Pompidou, na França – a exemplo dos trabalhos Carta ao Velho Mundo (2018-2019) e Na Terra Sem Males (2021).
Sopro ancestral
Desde menino, Esbell esteve imerso nas histórias contadas por seus avós, aprendendo sobre os mitos e as tradições que formam a base da identidade Macuxi. Era filho adotivo de Bernaldina José Pedro (1945-2020), a vovó Bernaldina, mestra e xamã indígena, e uma das líderes da luta pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Quando não estava em Roraima, passava temporadas, a trabalho, em São Paulo, desenvolvendo projetos e visitando amigos – parte de suas andanças eram compartilhadas com os seguidores em suas redes sociais.
Nos últimos desses registros, deixava antever preocupações provocadas pela pandemia de Covid-19. Em outros momentos, dividia reflexões poéticas e filosóficas sobre o dia a dia, nos quais versava, com profunda beleza, em torno de existência, sonhos e suas percepções sobre o mundo. Em 15 de abril de 2020, o artista escreveu em seu blog: “É sempre manhã no meu coração. Estou sempre buscando acordar e sair já encangado com a alegria. Eu tenho esse jeito, gosto muito de ser assim. Eu aprendi com meus avós indígenas que sempre foram assim. Ambos viveram bem, nunca deixaram a alegria sair de suas mãos”. No dia 2 de novembro de 2021, Jaider Esbell faleceu, aos 42 anos. Eterno em seu legado, carregou consigo a certeza de ter compartilhado sua cosmovisão e lutas por meio da arte. Como escreveu em seu blog: “Quero viver de boas memórias, essas que saciam as fomes, afugentam as inquietudes. Quero me manter matinal pronto pra deixar acontecer. Quero começar sempre aberto, liberto com a mente limpa para mais acontecer. Quero rever meu lado bom, estendê-lo por onde passar. Ah eu quero amar, flutuar, planejar não planejar. Dentro de mim é sempre manhã e quero continuar assim”.
para ver no sesc / bio
Presente e permanente Sesc São Paulo foi um dos palcos para a obra e o pensamento do artista Jaider Esbell
O artista, curador, escritor, educador e pensador indígena da etnia Macuxi teve uma estreita relação com o Sesc São Paulo, marcada por exposições e projetos que evidenciaram a força de sua arte e de seu ativismo. Em 2021, por exemplo, uma de suas obras mais conhecidas, intitulada Entidades, foi apresentada na terceira edição do projeto Frestas – Trienal de Artes, no Sesc Sorocaba. O trabalho, uma instalação inflável que representava duas grandes cobras, simbolizava entidades espirituais na cosmovisão dos Macuxi. Sob o título O rio é uma serpente, a edição reuniu 53 artistas e coletivos de diferentes países, com curadoria de Beatriz Lemos, Diane Lima e Thiago de Paula Souza.
No mesmo ano, o Centro de Pesquisa e Formação (CPF) Sesc São Paulo promoveu o curso Arte Indígena Contemporânea, ministrado pelo artista e pela antropóloga Paula Berbert. Os encontros abordaram questões relativas ao tema, pensando potências, desafios e implicações a partir da imagem do “encontro entre mundos”. Já em 2022, o Sesc Piracicaba recebeu a exposição Coração na aldeia, pés no mundo, que reuniu 108 obras contemporâneas feitas por 22 artistas (a maioria indígena) de sete estados brasileiros e do exterior. Sob curadoria de Fabiane Medina Cruz e Fabiana Bruno, a mostra homenageava Jaider Esbell, logo na entrada, apresentando uma série de 16 desenhos, de sua autoria, elaborados com técnica livre sobre o papel preto.
Jaider Esbell também participou da série Artérias, dirigida por Helena Bagnoli, e exibida pelo SescTV. A produção consiste em 26 minidocumentários com artistas de diversas gerações e regiões do Brasil. No programa, Esbell compartilha seu processo criativo e a esperança de mudar a perspectiva de pessoas que ainda pensam que os povos indígenas estão extintos, convidando-as a serem parceiras.
SescTV
Artérias (2020-2021)
Direção de Helena Bagnoli
Assista em sesctv.org.br/arterias
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